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Dia da Memória em Timor-Leste


A aventura e o privilégio de ensinar em Timor-Leste (2000-2002)

por Amélia Pessoa

É com muita saudade e nostalgia que recordo Timor-Leste, um país extraordinário onde tive o privilégio e a sorte de ensinar durante dois anos. Um país que me fez olhar a vida de uma outra forma, um país onde faltava tudo, mas no qual encontrei o sorriso mais puro e franco.
Dois inesquecíveis e maravilhosos anos em Lospalos, uma cidade na ponta leste do país que nos acolheu de braços abertos.
Cheguei a Timor-Leste em setembro do ano 2000. Tinha acompanhado as notícias sobre o país e achava que tinha uma ideia do que iria encontrar, pois nas entrevistas tínhamos sido alertados para a realidade que iríamos encontrar. Ainda me lembro da pergunta que me fizeram na fase de seleção de professores: “Está preparada para viver numa casa sem água, nem luz?”. Mas, chegando ao local, a realidade à nossa frente era ainda mais chocante, o que me deixou emocionalmente triste, sensibilizada e a sentir-me impotente. Ver aquela pobreza, a destruição, casas queimadas, um povo sem nada, um país onde faltava tudo, fez-me olhar para o meu trabalho como uma missão, com a certeza que era urgente agir, era urgente ajudar e, mais do que nunca, o meu trabalho seria, com certeza, uma mais-valia para o povo timorense. 
O meu/nosso contributo era mais do que necessário, era uma necessidade imediata.
Fui colocada na Escola Secundária de Lospalos. Uma linda e espaçosa escola, mas sem o mínimo de condições para se poder ensinar. Salas de aula sem mesas, sem cadeiras, sem portas, sem vidros nas janelas, com enormes buracos nos tetos. Uma escola sem casas de banho, sem água, sem eletricidade, sem materiais. Apenas um quadro preto, ou melhor, já sem cor, velho, irregular e riscado pousado em cima de uma velha mesa, encostado a uma parede.
Como poderia eu ensinar ali? 
Depressa tive de inventar e criar soluções. 
Apesar de tantas carências e limitações, tive dois aspetos fundamentais a meu favor: a enorme motivação e a sede de conhecimento dos alunos. Muitos deles de aldeias vizinhas percorriam quilómetros e quilómetros para poderem ir à escola. Três horas a pé, descalços, sem comer, chegavam à sala de aula com um sorriso e uma vontade que me faziam questionar pequenas atitudes que muitas vezes todos nós temos. 
Perante aquele cenário, do que me poderia eu queixar? 
De nada! Absolutamente nada! Ser imensamente grata pela vida que tinha!
Como poderia levar para a escola um lanche, ou uma garrafa de água para matar a sede durante o intervalo das sete horas de aulas, se tinha dezenas e dezenas de alunos a olhar-me com fome e sede? Teria de partilhar! Mas eram tantos! Não chegaria para todos! Sim, as turmas tinham entre 40 e 50 alunos.
Depois das aulas terminarem, pelas 3 horas da tarde, os alunos regressavam a casa e, de novo, muitos deles tinham um longo caminho a percorrer, pela hora de maior calor, sem comer. Chegados a casa, alguns apenas os esperava um prato de arroz, ou de milho e um copo de água. Logo de seguida iam ajudar os pais na horta, ou nas lides da casa.
Aqueles jovens com famílias destruídas pela guerra, com fome, com casas sem condições… tinham imensos sonhos, tinham necessidade de acreditar, tinham garra, tinham vontade e possuíam um sorriso de esperança genuíno e inesquecível. Tinham uma apetência incrível para aprender línguas, e em pouco tempo já falavam português. Eram excelentes nas artes e a vontade de aprender sobressaía de forma tão natural. Eram um exemplo de esforço e dedicação.
Trabalhei com todas as minhas forças para compensar, de alguma forma, todos aqueles jovens. Sabia que era uma gota de água no oceano… mas como eu, havia muitos outros colegas professores que tentavam fazer a diferença. Tenho consciência de que dei tudo o que poderia ter dado. Fui professora, amiga, conselheira, enfermeira, psicóloga, um familiar para aqueles que infelizmente já não tinham ninguém. 
Naquele país tínhamos de ser tudo. Aos olhos daqueles jovens, nós professores éramos a esperança, um apoio, um porto seguro, um exemplo a seguir. Os seus pedidos tornavam-se irrecusáveis. A nossa casa tinha sempre a porta aberta para todos.
Como poderíamos nós ignorar ou simplesmente não ajudar?
Aprendi tanto! Cresci enquanto professora e enquanto pessoa e tornei-me uma pessoa melhor! A eles o devo e vou ser eternamente grata.
Criei uma biblioteca na minha escola com a ajuda da Paróquia de Santa Maria Madalena, em Chaves, e de muitos portugueses que enviaram livros para lá. Mandei construir uma pequena “ponte” pedonal para se poder entrar na escola de forma mais segura. Celebrei o Dia Mundial da Criança nas escolas mais pobres do distrito de Lautém, oferecendo um dia de alegria com almoço, lanche, atividades, jogos e prémios. A alegria daquelas crianças a ver o Rei Leão num pequeno televisor, ainda hoje me faz sorrir. Pequenos gestos que tornaram a sua vida um pouquinho mais feliz e a minha também.
Vinte anos passados. Depois de mim, muitos outros professores têm trabalhado arduamente, ensinando a Língua Portuguesa, tendo, com certeza, o mesmo sentimento de saudade e acima de tudo de muito carinho por um povo tão especial, carinhoso, genuíno e amigo.
Hoje, Timor continua em mim. Sinto uma grande nostalgia e muita, muita saudade, mas sinto-me feliz por ter tido a oportunidade e o prazer de conhecer e conviver com o povo timorense.
Continuo ligada a Timor e tenho encontrado muitos ex-alunos no facebook. Tento ter contacto com professores que lecionam lá, fazendo correspondência escolar com os nossos alunos da Suíça e os alunos timorenses, uma partilha de realidades e culturas tão diferentes.
Timor Lorosa´e, a terra do sol nascente, que tem um lugar especial no meu coração!

Obrigada!
Amélia Pessoa

Timor-Leste, marcaste-me para sempre!

por Helena Novais

Quatro anos que estive nesse país maravilhoso e muito aprendi com pessoas humildes e queridas!
Inicialmente, foi um período difícil para mim, pois era tudo novo: crianças descalças, a vender cartões de telefone e frutas pelas ruas, a cuidar dos irmãos mais novos, o clima (calor extremo e abafado), as diferenças culturais, senhoras idosas a tomar banho nos riachos, velhinhos, nas montanhas, quase sem roupas, etc. Tive de reaprender a dar valor às coisas que realmente interessam.
O que mais gostei? Apenas direi algumas coisas, senão a lista não iria findar mais: o brilho no olhar das crianças, quando corriam para conversar connosco e nos chamavam carinhosamente “malae”, o trabalho dos professores ou futuros professores (alunos de português) que, com coisas tão simples, conseguiam fazer trabalhos maravilhosos e que, apesar do cansaço, pois alguns caminhavam quase quatro horas, para chegarem aos nossos cursos, nos brindavam sempre com a sua vontade de aprender. 
As salas de aula e outras instalações não tinham muito boas condições, mas o que me emocionava mais era a vontade de aprender e a dedicação que via. As crianças não eram exceção, pois eu e outra colega, a Rosa Martins, criámos um grupo, inicialmente, para treinar músicas de igreja e, depois, canções tradicionais portuguesas (música e dança) e a experiência foi extremamente divertida. De rádio na mão, lá conseguíamos proporcionar alguma alegria àquelas maravilhosas crianças, que também nos contagiavam com a vontade de querer aprender. Foram dias que recordo com muita saudade!
Conheci pessoas maravilhosas e revi outras que já conhecia. O meu chefe: Filipe Silva, foi meu colega de Universidade e revelou-se um mentor extraordinário e alguém que continua por Timor-Leste, creio que se identifica muito com este povo! 
Recordo, com carinho, os funcionários da Embaixada, que me davam ótimos conselhos e me ensinaram a conhecer melhor os timorenses e as histórias incríveis de vida que muitos deles tinham. Relembro, ainda, muitos colegas de trabalho, a Dona Fina, senhora extraordinária e boa companhia, que sempre me avisava aflita e preocupada, quando um crocodilo tinha passado pelas águas da praia da Areia Branca, para não eu não ser devorada! 
Tive a honra de conhecer pessoalmente Dom Basílio do Nascimento, que me recebeu e às colegas, na sua casa, com muito carinho e boa disposição, homem de enorme coração, que, infelizmente, nos deixou recentemente. O Doutor Ramos Horta que chegou a brindar os professores com a sua presença na nossa casa, num simples pequeno-almoço. Este homem é alguém de quem me orgulho ter conhecido, é uma pessoa humilde, que admiro muitíssimo.
Trabalhei imenso em Timor-Leste, mas valeu a pena! Embrenhei-me em vários projetos, fiz imensas amizades que jamais esquecerei.
Trouxe várias recordações com que os meus queridos alunos me mimaram: os tradicionais tais timorenses, que representam o trabalho árduo de um povo com uma enorme cultura e com jovens incrivelmente talentosos, mas que infelizmente não são devidamente valorizados, como podemos constatar com a recente triste notícia do despejo nas ruas do maior grupo artístico e cultural timorense, a Arte Moris.
Chegou a uma altura em que tive de regressar, pois a família de sangue estava do outro lado do mundo e “falou mais alto”, mas deixei a “família de coração”, que preencheu uma parte da minha vida e me ajudou a crescer como pessoa e ser humano melhor.
SAUDADE é a palavra com que termino e, quem sabe, um dia voltarei a esse país, preenchido da mais bela e pura natureza e do olhar marcante das crianças, que julgo nunca conseguirei ver em mais nenhuma parte do mundo, por mais espaços que possa percorrer, e, sobretudo, não conseguirei nem quero esquecer! 

Helena Novais